Terça-feira, 6 de outubro de 2026

“Pablo Escobar brasileiro” vai a julgamento acusado de comandar maior esquema de cocaína documentado

Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem da Gazeta do Povo revelam que o brasileiro Sergio Roberto de Carvalho, ex-major da Polícia Militar, comandou uma rede independente de tráfico de co...

Por Reprodução07/07/2026 às 12:005 min de leitura
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“Pablo Escobar brasileiro” vai a julgamento acusado de comandar maior esquema de cocaína documentado
Imagem: Reprodução

Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem da Gazeta do Povo revelam que o brasileiro Sergio Roberto de Carvalho, ex-major da Polícia Militar, comandou uma rede independente de tráfico de cocaína entre 2017 e 2020. Ele teria sido o “cabeça” de um esquema responsável pelo envio de ao menos 67 toneladas da droga para o continente europeu — o maior negócio do tipo já registrado na chamada Rota do Atlântico. Preso em 2022 após anos como fugitivo com identidades falsas, ele é apontado pela Interpol e pela Polícia Federal (PF) como um dos maiores narcotraficantes do mundo e agora enfrenta julgamento.

Com essas credenciais, Sergio Roberto de Carvalho ganhou a caracterização como "Pablo Escobar brasileiro”. Ele começou a ser julgado no último mês de maio na Bélgica, onde a Justiça emitiu uma sentença interlocutória sobre o caso. A sentença interlocutória é uma decisão tomada no meio do processo, antes da sentença final.

O tribunal respondeu a pedidos preliminares das defesas dos réus, discutidos nas audiências realizadas em março e abril. A decisão final só deve ser anunciada após a conclusão do julgamento, que será retomado em 7 de setembro. A reportagem da Gazeta do Povo procurou advogados do major no Brasil, mas não conseguiu contato.

À Justiça belga, seus defensores afirmam que ele é inocente. Quando o major da PM de Mato Grosso foi preso na Hungria em junho de 2022, a operação Enterprise deflagrada pela Polícia Federal já havia revelado que ele era um dos maiores narcotraficantes independentes que atuava na exportação de cocaína do Brasil para Europa. O que ainda não se sabia naquele momento era o real tamanho da atuação do "Pablo Escobar brasileiro”, como ficou conhecido o policial.

Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem da Gazeta do Povo revelam que, à época, Sérgio Roberto de Carvalho comandava uma megarrede de tráfico internacional de cocaína dentro da Europa. Desvinculado de facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho, cartéis ou máfias internacionais, ele estava à frente de uma operação com sócios na Bélgica, Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha, Inglaterra, República Checa e Emirados Árabes Unidos, além de países do Caribe e da África. A investigação se baseia em dados descriptografados do EncroChat – o "aplicativo do crime", que oferecia um serviço de comunicação segura para criminosos, e que foi invadido pela polícia da França.

As informações estão presentes em documentos de uma colaboração internacional sigilosa entre a Polícia Federal do Brasil e a Polícia Federal do Flandres Ocidental da Bélgica, junto com outros países da Europol. As investigações continuam em sigilo no Brasil e na Europa. Segundo a PF e a Europol, o esquema do major continua ativo dos dois lados do Oceano Atlântico.

Aos 67 anos e com vários passaportes falsos, o major demonstrou grande surpresa ao ser pego enquanto tomava café da manhã em um hotel de luxo em Budapeste. Carvalho nunca ficava mais que alguns dias em uma mesma cidade da Europa, por onde se deslocava em um jato particular Citation Latitude, da Cessna, avaliado em US$ 20 milhões, e em outros mais simples, quando precisava chamar menos a atenção. Assim, como aconteceu diversas vezes desde 2018, quando alguma polícia descobria onde o major estava e com qual identidade, ele já havia ido embora.

Foi assim na operação Enterprise, em Lisboa, um ano e meio antes. Quando a polícia portuguesa e agentes da PF brasileira invadiram o apartamento de luxo, o major não estava mais lá. No dia anterior, havia voado para a Espanha, depois para a Itália e, de lá, à Romênia.

Quando o major chegou na Ucrânia, dois dias depois, a PF perdeu o rastro dele. Na garagem do prédio em Portugal, uma van com 12 milhões de euros foi confiscada, além do imóvel avaliado em 2 milhões de euros. Carvalho era uma espécie de fantasma do crime organizado internacional.

Com imóveis, veículos, passaportes e dinheiro espalhados por vários países, estava em todo e nenhum lugar ao mesmo tempo. Inclusive no Brasil. Com uma ex-mulher e dois filhos adultos, já foragido da Justiça e procurado pela PF, o major costumava passar pelo país mesmo depois de ter se mudado definitivamente para a Europa em 2016, quando foi para a Espanha.

”Ele entrava e saía do Brasil a hora que queria, com os jatinhos e passaportes falsos dele, cada hora por um aeroporto diferente, muitas vezes sem nenhum registro", afirma à reportagem o delegado Sérgio Stinglin, da Polícia Federal, que comandou a operação Enterprise do início até o final de 2022. "Ele vinha pessoalmente resolver os problemas dele aqui. No geral, não é um cara violento.

O major tem perfil de empresário, é um grande gestor”, caracteriza o delegado. Quando foi descoberto pela PF em Portugal, ele vivia sob a identidade falsa de um empresário milionário, dono de uma frota de táxi aéreo sediada em Cascais e uma trading nos Emirados Árabes Unidos, que operavam legitimamente. Quando foi preso, o avião o esperava com o piloto no aeroporto internacional da capital da Hungria, de onde ia decolar na tarde da prisão com o dono para outro país do leste europeu – provavelmente a Ucrânia.

Carvalho estava acompanhado de seu inseparável segurança Arthur W., um ex-militar checheno naturalizado belga que era a sombra do ex-major onde quer que fosse pela Europa. O PM brasileiro não ofereceu resistência nem tentou fugir, como é possível ver em um vídeo do momento gravado pela polícia federal húngara.

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