Domingo, 4 de outubro de 2026

Indústrias brasileiras cruzam a fronteira e ampliam produção no Paraguai para fugir de impostos

Durante décadas, atravessar a Ponte Internacional da Amizade foi sinônimo de comércio informal e varejo de fronteira entre Brasil e Paraguai. Hoje, a travessia simboliza algo mais profundo: uma reorga...

Por Reprodução21/02/2026 às 12:004 min de leitura
Compartilhar:WhatsAppTelegramXFacebook
Indústrias brasileiras cruzam a fronteira e ampliam produção no Paraguai para fugir de impostos
Imagem: Reprodução

Durante décadas, atravessar a Ponte Internacional da Amizade foi sinônimo de comércio informal e varejo de fronteira entre Brasil e Paraguai. Hoje, a travessia simboliza algo mais profundo: uma reorganização silenciosa do mapa industrial do Mercosul. A migração de indústrias brasileiras para o Paraguai deixou de ser pontual e tornou-se tendência.

Pressionadas pela elevada carga tributária, pela complexidade regulatória e pelos altos custos operacionais no Brasil, empresas de setores como têxtil e confecções, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, produtos químicos e manufaturas voltadas à exportação vêm instalando unidades no país vizinho. Foi o que ocorreu com o empresário Fabrizio Gudin, de Matão, no interior de São Paulo, que decidiu abrir uma empresa no Paraguai em busca de, principalmente, menor tributação. "No Paraguai se trabalha um mês e meio por ano para pagar impostos.

No Brasil são seis meses e há, ainda, uma concorrência muito grande e mercados saturados", afirmou. "Queremos começar um novo ciclo no Paraguai", complementou. A decisão também foi tomada por Jonathan Linzmeyer, empresário e consultor empresarial que deixou São Bento do Sul, em Santa Catarina, para viver no Paraguai e administrar uma indústria de esquadrias de alumínio e vidros.

"O Paraguai tem crescimento projetado para os próximos anos, segurança jurídica, estabilidade econômica e inflação controlada", afirmou. Criada em 1997, a Lei de Maquila é o principal motor dessa atração. O regime permite importar máquinas, matéria-prima e insumos com imposto zero, desde que a produção seja destinada à exportação.

Nesses casos, a empresa paga apenas 1% sobre o valor agregado. Em 2025, o governo paraguaio ampliou o alcance do programa para incluir incentivos específicos à produção e montagem de equipamentos eletrônicos e digitais, além de estabelecer prazo inicial de 20 anos para os benefícios, com possibilidade de renovação. Linzmeyer destaca que o ambiente favorável não se restringe à indústria e alcança o mercado imobiliário.

"No Brasil, com a reforma tributária, o imposto sobre o lucro do proprietário pode chegar a 30%, enquanto aqui é 8%. E a locação tem retorno mensal de 1% sobre o valor do imóvel", explicou. O valor é superior à média do rendimento líquido imobiliário brasileiro.

Além do regime especial de exportação, o Paraguai adota o chamado modelo "triplo 10": 10% de IVA, 10% de imposto de renda empresarial e 10% de imposto de renda da pessoa física. "Mesmo fora da maquila, a alíquota máxima não ultrapassa 30% na soma desses tributos. No Brasil, apenas o imposto de renda da pessoa jurídica pode chegar a 34%, sem considerar tributos sobre consumo", disse João Eloi Olenike, presidente executivo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT).

A combinação entre menor carga nominal, simplificação e estabilidade regulatória ajuda a explicar o movimento de empresas brasileiras para o país vizinho. "O Brasil tem um sistema tributário extremamente complexo e oneroso. O Paraguai estruturou um modelo de atração de investimentos", complementou Olenike.

Os números ajudam a dimensionar o movimento. Dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai indicam que o país vizinho soma mais de 300 empresas maquiladoras em operação e aproximadamente 70% das indústrias instaladas nesse modelo são de origem brasileira. Para a presidente da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai (Cebras), Karina Ferreira, o movimento reflete a busca por previsibilidade.

"O empresário brasileiro não está apenas buscando pagar menos imposto, ele quer segurança jurídica, estabilidade nas regras, custo operacional previsível e capacidade de planejar o crescimento da empresa", afirmou. "O Paraguai oferece um ambiente muito mais simples para quem quer produzir e exportar", adicionou. A maior concentração das empresas brasileiras no Paraguai está na região Leste do país, próxima à fronteira, o que facilita a integração logística com estados como Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul.

O número de pessoas que trabalham em empresas no regime maquila chega a aproximadamente 35 mil e 64% de tudo o que é produzido tem como destino o mercado brasileiro. Ainda assim, o Paraguai enfrenta desafios. Com população estimada em 6,4 milhões de habitantes, o país carece de mão de obra técnica especializada em algumas áreas.

"Existe boa oferta de trabalhadores, mas a qualificação precisa avançar", diz Karina Ferreira, da Cebras, que vem investindo em programas de capacitação profissional.

Fique por dentro das principais notícias no WhatsApp

Receba em primeira mão alertas de política, economia e TV ao vivo.

Quero receber
Compartilhar:WhatsAppTelegramXFacebook

Leia Também