Indústrias brasileiras cruzam a fronteira e ampliam produção no Paraguai para fugir de impostos
Durante décadas, atravessar a Ponte Internacional da Amizade foi sinônimo de comércio informal e varejo de fronteira entre Brasil e Paraguai. Hoje, a travessia simboliza algo mais profundo: uma reorga...

Durante décadas, atravessar a Ponte Internacional da Amizade foi sinônimo de comércio informal e varejo de fronteira entre Brasil e Paraguai. Hoje, a travessia simboliza algo mais profundo: uma reorganização silenciosa do mapa industrial do Mercosul. A migração de indústrias brasileiras para o Paraguai deixou de ser pontual e tornou-se tendência.
Pressionadas pela elevada carga tributária, pela complexidade regulatória e pelos altos custos operacionais no Brasil, empresas de setores como têxtil e confecções, calçados, autopeças, metalurgia, plásticos, produtos químicos e manufaturas voltadas à exportação vêm instalando unidades no país vizinho. Foi o que ocorreu com o empresário Fabrizio Gudin, de Matão, no interior de São Paulo, que decidiu abrir uma empresa no Paraguai em busca de, principalmente, menor tributação. "No Paraguai se trabalha um mês e meio por ano para pagar impostos.
No Brasil são seis meses e há, ainda, uma concorrência muito grande e mercados saturados", afirmou. "Queremos começar um novo ciclo no Paraguai", complementou. A decisão também foi tomada por Jonathan Linzmeyer, empresário e consultor empresarial que deixou São Bento do Sul, em Santa Catarina, para viver no Paraguai e administrar uma indústria de esquadrias de alumínio e vidros.
"O Paraguai tem crescimento projetado para os próximos anos, segurança jurídica, estabilidade econômica e inflação controlada", afirmou. Criada em 1997, a Lei de Maquila é o principal motor dessa atração. O regime permite importar máquinas, matéria-prima e insumos com imposto zero, desde que a produção seja destinada à exportação.
Nesses casos, a empresa paga apenas 1% sobre o valor agregado. Em 2025, o governo paraguaio ampliou o alcance do programa para incluir incentivos específicos à produção e montagem de equipamentos eletrônicos e digitais, além de estabelecer prazo inicial de 20 anos para os benefícios, com possibilidade de renovação. Linzmeyer destaca que o ambiente favorável não se restringe à indústria e alcança o mercado imobiliário.
"No Brasil, com a reforma tributária, o imposto sobre o lucro do proprietário pode chegar a 30%, enquanto aqui é 8%. E a locação tem retorno mensal de 1% sobre o valor do imóvel", explicou. O valor é superior à média do rendimento líquido imobiliário brasileiro.
Além do regime especial de exportação, o Paraguai adota o chamado modelo "triplo 10": 10% de IVA, 10% de imposto de renda empresarial e 10% de imposto de renda da pessoa física. "Mesmo fora da maquila, a alíquota máxima não ultrapassa 30% na soma desses tributos. No Brasil, apenas o imposto de renda da pessoa jurídica pode chegar a 34%, sem considerar tributos sobre consumo", disse João Eloi Olenike, presidente executivo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT).
A combinação entre menor carga nominal, simplificação e estabilidade regulatória ajuda a explicar o movimento de empresas brasileiras para o país vizinho. "O Brasil tem um sistema tributário extremamente complexo e oneroso. O Paraguai estruturou um modelo de atração de investimentos", complementou Olenike.
Os números ajudam a dimensionar o movimento. Dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai indicam que o país vizinho soma mais de 300 empresas maquiladoras em operação e aproximadamente 70% das indústrias instaladas nesse modelo são de origem brasileira. Para a presidente da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai (Cebras), Karina Ferreira, o movimento reflete a busca por previsibilidade.
"O empresário brasileiro não está apenas buscando pagar menos imposto, ele quer segurança jurídica, estabilidade nas regras, custo operacional previsível e capacidade de planejar o crescimento da empresa", afirmou. "O Paraguai oferece um ambiente muito mais simples para quem quer produzir e exportar", adicionou. A maior concentração das empresas brasileiras no Paraguai está na região Leste do país, próxima à fronteira, o que facilita a integração logística com estados como Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
O número de pessoas que trabalham em empresas no regime maquila chega a aproximadamente 35 mil e 64% de tudo o que é produzido tem como destino o mercado brasileiro. Ainda assim, o Paraguai enfrenta desafios. Com população estimada em 6,4 milhões de habitantes, o país carece de mão de obra técnica especializada em algumas áreas.
"Existe boa oferta de trabalhadores, mas a qualificação precisa avançar", diz Karina Ferreira, da Cebras, que vem investindo em programas de capacitação profissional.
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