Terça-feira, 6 de outubro de 2026

Como a cidade mais gelada do Brasil transforma o frio em negócios 

As manhãs de inverno na cidade de Urupema (SC) costumam começar com temperaturas congelantes. A geada cobre os campos, a água congela e o frio intenso atrai turistas em busca de sentir a neve. Foi nes...

Por Reprodução22/04/2026 às 00:004 min de leitura
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Como a cidade mais gelada do Brasil transforma o frio em negócios 
Imagem: Reprodução

As manhãs de inverno na cidade de Urupema (SC) costumam começar com temperaturas congelantes. A geada cobre os campos, a água congela e o frio intenso atrai turistas em busca de sentir a neve. Foi nesse cenário que o empresário Miguel Milano resolveu transformar as temperaturas negativas em experiência — e em negócio.

O frio extremo aliado ao contato com belezas naturais motivou o empresário, que é engenheiro florestal, a apostar em uma vinícola com pousada boutique na cidade considerada a mais fria do Brasil. O empreendimento (Taipas de Urupema) reúne vinhedos e quatro chalés pensados principalmente para casais e famílias pequenas que buscam fugir da agitação das grandes cidades. Segundo Milano, a produção própria de vinhos ainda está em fase inicial.

A primeira safra comercial começou neste ano e a construção de uma vinícola deve ser concluída até o próximo inverno, estima o empresário. Natural da cidade de Palmital (PR), ele construiu carreira na área ambiental, foi professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) por mais de 25 anos e dirigiu a Fundação Boticário de Proteção à Natureza. Milano chegou a Urupema atraído pela conservação do papagaio-charão — pássaros de cores vibrantes que se reúnem em grandes grupos ao amanhecer e entardecer, atraindo os amantes da observação de aves.

“Essa região ainda preserva algo raro: paisagens naturais, florestas de araucária e um uso da terra que combina produção e conservação. Isso me chamou muito a atenção”, conta. O projeto da Taipas de Urupema, segundo ele, tenta seguir essa lógica.

Os chalés são espaçados, integrados à paisagem e equipados com sistemas de tratamento de esgoto por biodigestores. O paisagismo prioriza espécies nativas. “Cada detalhe aqui tem um sentido”, afirma.

O empreendimento está inserido em um cenário de cerca de 40 pousadas existentes em Urupema. A maioria dos turistas que buscam a cidade são de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, com média de permanência de três dias. Com pouco mais de 2,7 mil habitantes, o município ainda tem metade da população vivendo na área rural.

A base econômica é a agropecuária, com destaque para a produção de maçã — entre 26 mil e 30 mil toneladas por ano — e a pecuária de corte. O turismo vem crescendo, especialmente após a pandemia de Covid-19, quando destinos de natureza passaram a atrair mais visitantes. Reconhecida oficialmente como capital nacional do frio desde 2021, Urupema passou a explorar de forma mais estruturada as temperaturas negativas extremas.

“O frio virou um atrativo para o município. As pessoas querem ver de perto o gelo, a neve, a cascata congelada. É uma experiência”, afirma o secretário municipal de Turismo e Urbanismo, Antenor Arruda Neto.

No inverno, temperaturas mínimas de até 7°C negativos são consideradas comuns para os moradores acostumados com o frio. Em áreas mais altas, como o Morro das Antenas, a sensação térmica pode chegar a -22°C, impulsionada por ventos que ultrapassam os 50 km/h. Fenômenos como o sincelo — cristais de neve em suspensão que grudam na vegetação — ajudam a criar paisagens incomuns.

A chamada “cascata congelada”, no pé do Morro das Torres, virou um dos pontos mais procurados por turistas durante o inverno. De acordo com o secretário de Urupema, quando a neve aparece, o impacto é imediato. “A reação dos turistas ao ver a neve é como um gol em Copa do Mundo.

Todo mundo vai para a rua comemorar”, relata. Apesar da fama associada ao frio, a cidade tenta diversificar o turismo ao longo do ano. No outono, a colheita da maçã movimenta propriedades rurais e atrai visitantes.

Na primavera, os campos floridos e as paisagens naturais ganham destaque. No verão, o clima ameno aparece como diferencial para quem quer fugir do calor extremo e das praias lotadas. Eventos também ajudam a manter o fluxo de turistas.

Um dos principais é o Festival do Papagaio-charão, realizado em abril. A ave migra do Rio Grande do Sul em busca do pinhão e protagoniza revoadas que atraem observadores de diferentes países. “Vem gente dos Estados Unidos, da Alemanha, da Índia.

É um público muito específico que movimenta a cidade”, diz o secretário.

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